https://biblioteca.galiciana.gal/gl/catalogo_imagenes/descargarAlto.do?path=1157107&posicion=1
https://galsem-services.galiciana.gal/doclinks/10/1077/107739cd-cb95-40fe-9ba8-e63553e7359f/11571079.xml
NÓS
roeste da França — 6 (1); Bélgica — 1; Alemanha — 1; Ilhas dinamarquesas — 2 (2). Deve pois acrescentar-se a este inventário mais 4 de Portugal e 1 de Espanha, ou, pelo menos (se considerarmos exclusivamente as lúnulas da Idade do Bronze), 1 de Portugal —proveniente de Cabeceiras de Basto.
¿O que autoriza a incluir esta lúnula portuguesa na Idade do Bronze? Primeiramente a sua analogia com o tipo de certas lúnulas desta Idade; e, em segundo lugar, a sua técnica flagrantemente aproximada da técnica empregada no diadema de Brêa (Alto-Minho), estudado por José Fortes, com meticuloso rigor científico (3), e classificado no início da Idade do Bronze.
As lúnulas, na sua maioria, especialmente as aparecidas na Irlanda ou de proveniência irlandesa, são minuciosamente decoradas pelo anverso, não só nas duas extremidades, mas por toda a extensão do bordo interior e exterior, com os característicos motivos geométricos que, desde a cerâmica eneolítica do vaso campaniforme, persistiram através da Idade do Bronze: triângulos, dentes de serra, quadrícula, chaveirões, etc. (4).
(1) As lúnulas francesas pertencem às seguintes localidades: Tourlaville, Valognes e Montebourg (Mancha), St. Potan (Côtes-du-Nord), Nesmy e Bourneau (Vendée). A mais citada é a de St. Potan, descoberta em 1890. Sobre ela cf. Paul du Chatellier. — «Diadème de St. Potan», in Bull. Soc. Arch. Nantes-1892, e «Ornement de tête en or découvert à Saint Potan» Vannes, 1892; G. Mortillet. — «Bijou en or des Côtes-du-Nord», in Revue mensuelle de l'École d'Anthrop. de Paris-1893, p. 359. As três da Mancha desapareceram (Cf. Reinach. — Ob. cit.-p. 95 e L’Anthropologie. — Paris-tomo V-1894, p. 205-206). Sobre as da Vendée, a primeira descoberta em 1759 e a segunda em 1833, também perdidas atualmente, cf. Revue Arch.-1879-Vol. II, p. 254 e 255.
(2) A lúnula alemã é de Schulenburg (Hannover), e as da Dinamarca, no Museu de Copenhague, são de Skovshoirup (Fiónia) e de Grevinge (Seelândia). Cf. Mannus, Zeitschrift für Vorgeschichte. — Würzburg-1912-IV, p. 70.
(3) José Fortes. — «A sepultura da Quinta da Água Branca», in Portugália-Vol. II, p. 241 e segts. Vertido em francês na Revue Préhistorique-1906-n.º 5, trabalho que foi considerado pelos Redactores desta Rev. como um modelo de observação e investigação arqueológica.
(4) Ornamentação semelhante apresentam certos machados de bronze, chatos, de um tipo frequente nas Ilhas britânicas, no 1.º período do Bronze, especialmente na Irlanda, os quais aparecem também na Escandinávia e Alemanha do Norte, como artigos de importação. Um desses machados, proveniente da Dinamarca, ostenta uma decoração absolutamente igual à de algumas placas funerárias, do Eneolítico em Portugal (os chamados ídolos-placas). Cf. Déchelette, Ob. cit. — Vol. II,
213
agrupados em distintas zonas. Esta ornamentação, bem patente em três das mais notáveis joias arcaicas de Portugal — as pesadas xócaras de ouro, de Sintra, Penela e Évora (1), e nas lúnulas irlandesas, quase sempre executada a buril, finamente gravada, e só raras vezes a punção. Sendo pois estes motivos arcaicos inteiramente semelhantes aos da cerâmica típica dos primeiros tempos da metalurgia, em toda a Europa Central e Ocidental, devem, por este indício, segundo Reinach, colocar-se os crescentes desse tipo numa época anterior, pelo menos, ao ano 1000 a. C. (2). Ocorre lembrar aqui, todavia, como restrição a possíveis afirmações demasiado categóricas em questões de cronologia, que uma tal ornamentação persistiu, como sensatamente o fez notar Martins Sarmento (3), até aos tempos históricos, em determinadas regiões: «A cerâmica da Lusitânia, a julgar pelos achados de Sabroso, Citânia, Castro d’Areosa, etc. empregava, ao tempo da conquista romana, os mesmos ornatos que se encontram nos objetos de bronze e nos objetos de barro das cidades lacustres da Suíça, a algumas das quais Mr. Gross (4) atribui uma antiguidade quase fabulosa».
Porém, a lúnula de Cabeceiras está longe de ostentar essa exuberância e perfeição ornamental dos crescentes irlandeses, oferecendo mais claras afinidades, pela sobriedade da decoração e pelo trabalho em relevo
p. 256 e 257; J. Evans. — L'Age du Bronze. — Paris-1882-p. 47 e segts.; O. Montelius. — «Zur Chronologie der ältesten Bron” zezeit in Nord-Deutschland und Scandinavien», in Archiv für Anthropologie-Vol. XXV (1898) e XXVI (1899). Brunswick.
(1) Cf. Boletim da Real Associação dos Arquitectos Civis e Arqueólogos Portugueses-1883-Vol. IV, p. 62, e 1896-Vol. VII, p. 77; The Antiquaries Journal-1925-Vol. V-n.º 2, p. 123 e segts.
(2) Reinach. — Ob. cit.-p. 81. Déchelette coloca-os no final do Bronze-I, portanto, cerca de 1900 a. C., segundo a sua divisão cronológica (Cf. Ob. cit.-Vol. II, p. 105). Em Harlyn, perto de Padstow (Cornualha), apareceu, a cerca de 2 metros de profundidade, um machado chato, do início do Bronze, associado a duas lúnulas (Cf. Evans. — Ob. cit.-p. 46), achado que precisa a data deste tipo de jóias.
(3) F. Martins Sarmento. — «A argola encontrada em Penela», in Novidades, jornal de Lisboa-1885-Jan.º, n.º 8 e 9; transcrito in Noticias de Penela. — Apontamentos históricos e arqueológicos. Monografia de Delfim de Oliveira. — 1856, p. 31.
(4) Victor Gross. — Les protohelvètes-Paris-1883.
https://galsem-services.galiciana.gal/doclinks/10/1077/107739cd-cb95-40fe-9ba8-e63553e7359f/115710715.xml
BOCETOS DE MUNICH
A PERSPECTIVA
O Isar, o río bávaro baixa fungando dos Alpes entre penedos verdecentes cubertos de lamigueiros. As augas azues refrexan os picoutos das casas cativas pintadas con léndas bíblicas, as casas que nas esquinas sosteñen estátuas simbólicas. Sobor a ribeira érguese o mar de tellados puntiagudos de Munich, e por riba dos tellados inmensas, xigantes, as fumieras das fábricas de cerveza; e alá, ó carón das nubes trubadas, outas, semellantes a boks de cerveza invertidos, tan verdes como a paisaxe, as dúas torres da cadeiral.
Ó fondo cheos de neve os Alpes vixiantes, que teñen os pés metidos nos lagos tranquíos. Ó redor da cibdade centos, miles de árboles.
O sol casique sempre está escondido e brila timidamente tras unha nube.
O ambiente é húmido.
A VILA
No corazón da vila está chantada unha casa gótica. Na sua parede anidan as estátuas dos vellos guerreiros e na sua torre á mañá ó dal-as doce dous esforzados cabaleiros rifan diante dos Príncipes bávaros, namentras embaixo unha roda de toneleiros baila a danza tradicional da cibdade. É a casa do concello. A seu arredor na praza de María hay unha dúcia de casas picudas pintadas con léndas e frores que son o anaco mais enxebre da vila.
Á praza de María van a dar total-as grandes rúas da cibdade antiga: Neuhauser, a rúa dos restorás e cervecerías de longas fenestras de vidros abafados; a Theatiner, das tendas elegantes; a Thal onde se move un mundo de cativos vendedores, etc.
Non lonxe da praza escomenza a vila nova, feita pol-os reises artistas da Baviera que no século derradeiro souperon imitar concenzudamente as belezas arquiteitónicas de Italia. A rúa do Rei Luís longa e ancha é unha exposición permanente de copias de edificios italiás, especialmente de Florencia; copias que souperon acougar tan ben no ambiente agradable de Munich que hoxe semella ser propio o que é alleo. E cecais pode decirse que a beleza especial que se atopa en Munich enraigumase en parte n’istes edificios importados.
Na periferia da vila os rueiros do estilo novo da Arquiteitura xeométrica e simple e pequenas cibdades xardís.
O POBO
O tipo enxebre bávaro é un home barudo con unha boa panza que leva na testa un chapeu verde e cativo adornado cunha pruma de pato salvaxe, viste un traxe tamén verde, de chaqueta curta e un pantalón que non lle chega ás canelas.
Este tipo enxebre é o labrego. Mais en Munich estudantes, empregados, tendeiros etcétera visteno. Eu vin un Profesor ataviado de tal xeito rubido a unha bicicleta atravesal-a vila.
En Munich visten de labregos os artesás. E iste trastocamento do traxe correspondese con certo espírito campesiño que atópase nas cibdades bávaras. En Munich que ten perto de 800.000 habitantes síntese o campo no medio da vila. Cecais n’isto consista a sua xeitosidade tan gabada, a tan soada gemütlichkeit que comparte con Viena.
https://galsem-services.galiciana.gal/doclinks/10/1077/107739cd-cb95-40fe-9ba8-e63553e7359f/11571072.xml
BOLETÍN MENSUAL da CULTURA GALEGA
Direitor Literario Vicente Risco Direitor Artístico Alfonso R. Castelao
Adeministrador ANXEL CASAL
DIREICIÓN E REDAUCIÓN: ADEMINISTRACIÓN: Sto. Domingo, 47 —OURENSE Real, 36 1°—A CRUÑA
ABONAMENTO NOTA
Doce números, na Península 6'00 pesetas. Fora da Península 8'00 » Númaro solto 0'70 »
Este boletín non publicará mais orixinais qu'os que foran directamente solicitados pol-a Dirección. Tampouco se fai solidario das ideas n-eles emitidos, a non ser dos que por non iren rubrados, enténdense que son da Redacción.
Os pagos son adiantados e os gastos de xiro de conta dos suscritores
SUMARIO
Joias arcaicas encontradas em Portugal, I, Mario Cardozo. Bocetos de Munich, por Emilio González López. Arquivo Filolóxico e Etnográfico de Galiza.
Reloxería ZENITH MAQUINAS PARLANTES. DISCOS AGULLAS e ACCESORIOS M. CALVIÑO - Ourense
Vicente Risco Abogado Santo Domingo, 47-2° Ourense
https://galsem-services.galiciana.gal/doclinks/10/1077/107739cd-cb95-40fe-9ba8-e63553e7359f/115710720.xml
Pardo Óptico Científico
Preguntoiro, 32
Santiago
Casa exclusivamente dedicada a óptica científica
Fotograbado
Si quer que os seus fotograbados sexan o máis perfecto posibles, convénlle envialos aos
Talleres de fotograbado ESPASA-CALPE S. A.
Ríos Rosas, 24-Apartado, 547 MADRID
Droguería e Farmacia
Luis Fábrega
Progreso, esquina a Luís Espada
Ourense
Merque Vostede Plumeiros Rafium
De máis dura qu-os de pruma e limpan
mellor. Véndese en todol-os estableci-
mentos do ramo
Andrés Perille - Ourense
Bodegas Gallegas, Peares e Ourense
Viños finos de mesa: Tinto TRES RIOS. Blanco BRILLANTE
LOS GALLEGOS blanco e tinto
Macia e Valeiras, Apartado 18-Ourense
Sanatorio Quirúrgico de San Lorenzo
Santiago de Galicia
De los Profesores
D. Fernando Alsina y D. Antonio M. de la Riva
Cirujano Ginecólogo
Establecimiento dotado de todol-os elementos que exixen
a terapéutica e a hixiene modernas, situado nas aforas
da poboazón, moi cerca do paseo da Ferradura
Teléfono número 195
Pra detalles, calquera dos Directores ou o Médico interno
https://galsem-services.galiciana.gal/doclinks/10/1077/107739cd-cb95-40fe-9ba8-e63553e7359f/11571073.xml
BOLETIN MENSUAL DA CULTURA GALEGA
Ano XI ★ Ourense 15 de Nadal do 1929 ★ Núm. 72
Jóias arcaicas encontradas em Portugal
A Memória Ilustre do Arqueólogo José Fortes
I
Mencionando hoje um notabilíssimo tesouro inédito de ourivesaria arcaica, aparecido em terra portuguesa, e acompanhando esta comunicação de um inventário, tão completo quanto nos foi possível realizar, de todas as jóias de caracter pre-romano encontradas em Portugal, do nosso directo conhecimento ou registadas por informações verbais e referências bibliográficas—julgamos poder prestar um concurso aproveitável aos modernos estudos da Arqueologia hispânica.
O tesouro a que nos vamos referir tem-se conservado quase desconhecido, desde a data do seu aparecimento, há cerca de vinte anos! Consta de três peças de ouro: um crescente, ou lunula, e dois pequenos discos. Está actualmente em poder do coleccionador, de Viana-do-Castelo, Sr. Serafim de Sousa Neves, o qual, em fins de 1911, comprou estas jóias a um ourives que, da cidade de Braga, costumava ir feirar na sua indústria a Cabeceiras de Basto. Este ourives, de sobrenome Fónseca, já falecido, adquiriu numa dessas feiras as valiosas jóias d’ouro, de certo para fundir, mas, providencialmente, foram parar às mãos do antiquário Senhor Neves, que delas houve conhecimento e as guarda hoje com verdadeiro carinho. Sabe-se que o tesouro foi encontrado em Cabeceiras de Basto, ignorando-se, porém, o logar preciso desta região onde ele apareceu, ficando assim perdidos quaisquer detalhes neste sentido, que seriam preciosos.
A história repete-se, em toda a parte. É raríssimo o achado de valores (jóias ou moedas) cujas condições de jazida se conheçam claramente, porque o afortunado e acidental descobridor, na maioria dos casos um cavador inculto, pretende, por todos os meios, subtrair à cobiça alheia o local que a sua fantasia transforma logo em mina inesgotável, e onde calcula, portanto, virão, depois, a aparecer novas e prodigiosas riquezas. Por outro lado as inesperadas ofertas monetárias e o interesse manifesto dos compradores, que logo surgem, pressurosos, põem o desconfiado vendedor de sobreaviso. Alvitrava Ricardo Severo que se promulgasse uma lei considerando «todos estes documentos como bens nacionais inalienáveis» (1). Enquanto isto se não realizar, o fogo continuará a destruir, no cadinho, impiedosamente, tão formosos quanto raros exemplares da nossa ourivesaria arcaica, ou a prodigalidade dos coleccionadores estrangeiros os desviará para fora do país (2). Porém, o actual possuidor do tesouro de Cabeceiras, professor aposentado de uma Escola Industrial, não é um indiv-
(1) Portugalia.—Porto. Vol. II, p. 2.
(2) A famosa xorca de Sintra foi parar ao British Museum, porque em Portugal não houve quem desse por ela 2.000 escudos no seu possuidor. (Cf. O Arg. Port.-1902- Vol. VII, p. 155). Por idêntico motivo o tesouro de Chão-de-Lamas (Miranda do Corvo) foi para o Museu Arqueológico Nacional, de Madrid (Cf. Actas y Mem. de la Soc. Esp. de Antrop. Etnogr. y Preh. 1927- Vol. VI, p. 263, e o colar de Evora para o Museu de St. Germain-en-Laye (Cf. The Antiquaries Journal - 1925, Volumen V, p. 129).
https://galsem-services.galiciana.gal/doclinks/10/1077/107739cd-cb95-40fe-9ba8-e63553e7359f/115710713.xml
NÓS levantados pelo reverso, enquadrando caneluras centrais. O relevado de pontos e linhas constituía o motivo ornamental mais singelo aliado ao mais simples processo técnico de trabalho. A maleabilidade do ouro nativo, geralmente empregado nas mais antigas jóias, prestava-se a esta execução, bem como a fina laminagem, condição essencial para a prática do relevado. O trabalho a buril dos artistas irlandeses exigia, sem dúvida, mais segura e hábil mão.
O uso das lúnulas na Europa, originário por certo da Irlanda, propagou se, nos começos do Bronze, aos países com os quais ela comerciava, e, entre esses, a Ibéria. O achado de Cabeceiras veio assim dissipar uma lacuna que, de certo modo, existia nas manifestas e antiquíssimas relações diretas, por via marítima, entre a Península e aquela Ilha britânica. José Fortes escrevia, em 1906, a propósito dessas primitivas relações comerciais, atestadas em vários factos, tais como—o aparecimento de objectos da indústria lítica, comuns aos dois países, nomeadamente as pontas de setalôsanguicas; a construção e tipo dos dolmens; as flagrantes afinidades artísticas; a velha tradição irlandesa de que uma parte da população que primitivamente povoara o país partira da Ibéria; o uso da alabarda de bronze, característico produto da cultura hispânica de 1.º período do Bronze (1), etc., escrevia José Fortes que, a pesar de tantas e tão flagrantes conexões, era surpreendente que nem um só objecto de ouro de proveniência ou tipo irlandês, nem uma dessas características lúnulas, tão abundantes na Hibérnia, tivesse sido encontrada na Península. E atribuía este facto (com reserva e circunspecção) à primitiva abundância do ouro na Ibéria, que, portanto, a si própria se bastaria na expansão e comércio dos artefactos desta indústria (2). O tesouro de Cabeceiras, cujo estudo lastimamos hoje que José Fortes não tivesse chegado a efectivar, pelas valiosas e sábias
(1) Cf. H. Schmidt.—Estudios acerca de los principios de la Edad de los metales en España.-Trad. de Bosch Gimpera-Madrid-1915.
(2) José Fortes.—«La spirale préhistorique et autres signes gravés sur pierre.-Étude sur les relations antéhistori-
217
lições que nos deixaria, veio assim, repetimos, esclarecer este ponto escuro e confirmar, com mais uma prova irrefutável, a existência das velhas linhas de expansão comercial da Península e a sua notável cultura primitiva. Estas longínquas relações de comércio, e até possíveis afinidades raciais com a Irlanda e sul da Gran-Bretanha prolongaram-se, num decurso de muitos séculos; factos incontroversos mostram que a civilização destas regiões, tão afamadas na antiguidade principalmente pela sua riqueza aurífera era sensivelmente a mesma. Ainda recentemente, numa notável Memória apresentada à Sociedade dos Antiquários de Londres, o Sr. Thurlow Leeds, após uma viagem de estudo pelo Noroeste da Península Hispânica, em 1921, tendo visitado atentamente alguns castros do N. de Portugal e Galiza, nos deu um vivíssimo quadro retrospectivo desta sequência de relações comerciais e culturais, desde o século VI a. C. (data provável da irrupção celta na Ibéria e seguidamente nas Ilhas britânicas) até final da 2.ª Idade do Ferro (1).
Os dois discos que acompanhavam a lúnula de Cabeceiras seriam, talvez, dispostos simetricamente, cosidos às roupagens (2), sobre os seios de mulher inumada (3). Discos de aplicação certamente idêntica apare-
ques de l'Ibérie avec l'Irlande», in Revue préhistorique-1906-n.º 10 (Cf. p. 14 da Separata).
Se bem que o ouro abundasse na Península Ibérica, onde, segundo Plínio (Nat. Hist.-XXXIII, 21), num só ano, se extraíram das Astúrias, Galiza e Lusitânia, quantidades no peso total de 20.000 libras, o certo é que a primeira fonte aurífera da Europa Ocidental, nos tempos primitivos, foi a Irlanda, cujas minas, aliás, se encontrariam esgotadas por volta do sec. V a. C. (Reinach.—Ob. cit.-p. 172).
(1) Thurlow Leeds.—«Excavations at Chun Castle, in Penwith, Cornwall»-Separata de Archaeologia-Vol. LXXVI-1926. Para o estudo das primitivas relações da Península Hispânica com a Irlanda cf. também os trabalhos de J. Loth, Breuil, Bosch Gimpera, Cuevillas-Brey, García Romero, Federico Maciñeira, Murguía, etc,
(2) Déchelette.—Ob. cit.-Vol. II, p. 316.
(3) Esta hipótese é tanto mais aceitável quanto é certo que a lúnula, que acompanhava os discos, pertence à classe dos adornos exclusivamente femininos (Cf. Reinach.—Ob. cit.-p. 95 e 97).
https://galsem-services.galiciana.gal/doclinks/10/1077/107739cd-cb95-40fe-9ba8-e63553e7359f/115710716.xml
220 A POLÍTICA
En Baviera fálase unha especial língoa xermánica. Fala nasal como o francés. O bávaro está contento co seu falar e sinte por il emoción. Si un prusiano escoita a un bávaro falar na sua lingua afina o seu ouvido e sorri; a sua sorrisa quer dizer: iste home alemán ten un falar que non entendo, pero non soa mal. É como si escoitara unha música distinta a sua, mais amiga. A posición d'un prusiano frente a lingua
bávara é de compresión, mui lonxe da do español que ó escoitar unha fala peninsular coida que quenesa falan pretenden molestal-o personalmente e a fala cousa digna de cás.
A vila é social-demócrata o agro rexonalista, nemigo de Berlín. Mais Baviera unha vezada fixo unha revolución e a revolución foi comunista.
EMILIO GONZÁLEZ LÓPEZ
Arquivo Filolóxico e Etnográfico de Galiza
En Ocero (mal castellanizado, pois debera ser Urzero o Urcero, de Urzeiro: monte uces o uzes), aldea situada ao norte do Bierzo faise o xogo que indica a Revista NÓS (número 66, tomo 6) co nome de «A Porca», pero en Ocero leva o nome de «A cocha», xogándose en igual forma.
O biolo.
É tamén unha pedra como «A cocha»; fanse cinco raias n-un campo como de «futbol»; na raia do centro ponse «O biolo», e dous xogadores ponse cada un co seu pau e péganlle con il cal si fose unha pelota fan o mesmo traballo, e cando pasa unha raia dos extremos, anótase un tanto. Xógase no Outono, nos prados de propios, pero cando o gando anda a «rella revolta» (cando as reses de cada un poden pacer nas leiras dos demais donos).
As chetas.
Outro xogo moi común é o das «Chetas», xogo de rapazas, que faise por medio de cinco pedriñas. (Xógase no Primaveira).
O cinto queima.
Xogo de mozos e rapaces, pol-o Inverno, as noites de xelada (xeada). Fan un circo de mais de media dúcia (poden ser menos), cantos mais mellor, collidos das maus; un d'iles leva na man un cinto (cinturón de cuero, correa), envolto e procura poñelo tras dos pés d'un, namentras vai decindo arredor: «cinto queima, cinto queima, cinto queima, que deixa de queimar, etc.»; si o rapaz do cinto deixou iste atrás d'un e consegue collelo de novo sin que iste se decate, iste ten que salir correndo arredor do circo, recibindo os cinteirazos que o outro lle pega, non dando mais que unha volta, e sigue o mesmo dono do cinto repetindo o mesmo traballo. Mais si un se decata de que lle poñeron o cinto detrás, cólleo e corre a cinteirazos a quen llo deixou, hasta que iste pudo meterse a ocupar o sitio que deixou aquil no circo.
Garbanzos tostaus.
É un xogo de mozos e mozas, xógase no Inverno; faise un circo collidos das maus; un quédase fora e camiña arredor do circo; de repente pégalle, tan despazo ou tan forte como poda e calquera, a quen queira mellor ou pior, e sale correndo arredor do circo, decindo:
—Garbanzos tostaus.
—Cocidos e asaus—diz o que levou o po-
https://galsem-services.galiciana.gal/doclinks/10/1077/107739cd-cb95-40fe-9ba8-e63553e7359f/115710718.xml
222 NÓS
Gorrión: se lle chama «pardal».
O corno de Alicor.
Un veciño ten un corniño, pequeniño (corno do Alicor ou alicornio); é propiedade do pobo, mais o ten ese veciño, porqueilé o que sabe usalo (morreu o que o tiña: tío Tiadoro). Cando morde unha donicela (1) lávase a llaga con auga por onde pasou o corno do alicornio, facendo unha misteriosa oración e unhas cruces que naide entende.
A rabia.
Pra inmunizarse contra a rabia, vai a xente ao pobo de Fontes Novas (Fuentes Nue- vas: no mesmo Bierzo) (non sei se será no pobo de Santoñana—que non sei onde queda—en vez de Fontes Novas), e co-a chave de San Bernardo enroxecida fanlle unha cruz na fronte a aquil que se sospeita que fose mordido.
Calabazas.
Recíbeas o que fai unha declaración de amor e non é correspondido; recíbeas o que vai a esaminarse na dotrina e ten que volver (o aplazado).
Comunicados por
SEBASTIÁN GUERRERO
Bós Aires.
(1) É verdade que morde? Morderá, mais veneno non ten'
Imprenta NÓS, Real, 36-1.º A CRUÑA
Non deixe d'adequerir
SEGUNDO LIBRO DE COUSAS
por CASTELAO
F. ROMAN e SACO
DROGUERIA e FARMACIA
Pereira, 19 — OURENSE — Teléfono 28
https://galsem-services.galiciana.gal/doclinks/10/1077/107739cd-cb95-40fe-9ba8-e63553e7359f/11571075.xml
NÓS 209
Fig. 1.—O tesouro de Cabeceiras Basto.
(Gr. nat.)
https://galsem-services.galiciana.gal/doclinks/10/1077/107739cd-cb95-40fe-9ba8-e63553e7359f/11571077.xml
NÓS
tra se fracturada transversalmente, estando essa pequena parte separada por completo do corpo da peça, o que deixa suspeitar que tal fractura tenha sido feita intencionalmente, talvez com o sentido cauto de facultar apenas esse fragmento ao exame do ourives, a quem mais tarde seriam vendidas todas as peças, uma vez obtida a confirmação de que eram valiosas.
O ouro, submetido a um exame visual, acusou o toque de 750 milésimos. O possuidor dos objectos, com natural receio que os deteriorem, não se decidiu ainda a mandar-lhes fazer um ensaio real, na Contrastaria, não podendo, portanto, dizer-se a percentagem em que a prata, e outros metais, entram na liga. Apresenta uma bela côr amarela, não muito clara, característica do ouro deste toque, e o metal é maleável, se bem que manifeste uma certa resistência, que o fez estalar pela dobra sofrida.
A ornamentação da lúnula é extremamente simples: apresenta nos bordos interno e externo uma linha de pontos relevados, percutidos pela face posterior, a punção acuminado, assente previamente a lâmina, talvez sobre uma placa de chumbo (1). Estes dois cordões de pontos levantados ligam-se, em cada extremidade da lúnula, por uma linha transversa dos mesmos pontos, à distância de uns 13 mm. do centro dos orifícios terminais. A uma distância de cerca de 32 mm. para a parte inferior destas linhas transversais ou radiais apresentam-se outras duas linhas de pontos, com a mesma orientação, ladeada cada uma por duas caneluras, também levantadas pela parte posterior. Foi assim a superfície ornamentada da peça dividida em três zonas, sendo duas pequenas, terminais, e ocupando a terceira toda a parte média, pelo centro da qual correm, no sentido longitudinal da lúnula, três caneluras relevadas. Estas caneluras não se apresentam de uma continuidade perfeitamente uniforme, mostrando antes o deslize incerto de um cinzel ou ponteiro boleado, corrido à mão e fortemente premido sobre a lâmina.
Todas as peças, tanto a lúnula como os
(1) Vidi H. Schliemann.—Micenes.—Paris—1879—p. 245.
discos, estão polidas e brilhantes, na face anterior, e foscas na parte posterior. Esta polidura desvaneceu, naturalmente, os vestígios da percussão do martelo, que os objectos sofreram, na laminação à bigorna, notando-se, todavia, na face posterior certas imperfeições que podem, talvez, atribuir-se à martelagem (1).
DISCOS (Fig. 1).—São dois, como dissemos, os discos do tesouro de Cabeceiras, formados por lâminas ainda mais delgadas que a lúnula, pois apresentam uma espessura que varia desde 1/3 a 1/4 de milímetro. São aparentemente iguais, no peso e no tamanho, apresentando, porém, certas diferenças que a simples vista não acusa de pronto. Para nos referirmos a tais desigualdades mencionaremos, desde já, uma circunstância que nitidamente os distingue—o facto de um deles apresentar, na zona central, dois orifícios de 1,5 mm. de diâmetro, distanciados de 3,5 mm, e o outro mostrar quatro orifícios semelhantes, também no centro, dispostos crucialmente. Todos estes orifícios apresentam rebarbas na parte posterior das placas, tendo, portanto, sido praticados a ponteiro, do anverso para o reverso.
O disco que apenas contém dois orifícios mede, no diâmetro que passa pelo centro dos mesmos, — 49 mm, e, num diâmetro perpendicular a este, — 48 mm; acusa o peso exacto de 4,9 gramas. O disco dos quatro orifícios mede, no diâmetro que passa pelo centro dos dois furos mais afastados, — 48 mm, e, no diâmetro que passa pelo centro dos dois mais juntos— 49,5 mm; pesa 5,2 gramas.
A ornamentação destes discos consta de sete círculos concêntricos, praticados em canelura relevada. No disco dos dois orifícios, agrupam-se cinco círculos maiores, e, após uma zona plana de cerca de 3 mm, levantam-se os dois menores. O outro disco apresenta um agrupamento de seis círculos
(1) Parece-nos arriscado atribuir a laminagem, em tão recuados tempos, a outros processos mecânicos que não sejam o martelo e a bigorna (Cf. Revue Celtique—1900—Vol. XXI, p. 168-nota 6). O laminador propriamente dito é uma descoberta recente, de meados do sec. XVI.
https://biblioteca.galiciana.gal/gl/catalogo_imagenes/descargarAlto.do?path=1157107&posicion=12
https://galsem-services.galiciana.gal/doclinks/10/1077/107739cd-cb95-40fe-9ba8-e63553e7359f/115710714.xml
ceram em Bensafrim (Algarve) (1) e Condeixa-a-Velha (Conímbriga) (2), os quais teriam sido pregados às vestes mortuárias ou simplesmente depostos sobre o corpo do defunto, como apareceram os discos áureos, admiravelmente ornamentados, recolhidos por Schliemann, em grande quantidade, num dos túmulos da Acrópole de Micenas (3). Pequenas placas losanguiformes, de técnica semelhante, depositadas no Museu do Louvre e provenientes de Salonica, admite-se que seriam colocadas sobre a boca do morto (4).
Os círculos concêntricos, pretensa degenerescência da espiral (debased spiral), ou, segundo outros, origem da espiral, igualmente vulgares, como os ornatos já referidos a propósito das lúnulas irlandesas, na cerâmica e outras peças da Idade do Bronze, são, porém, raríssimos na Irlanda em objetos metálicos, como nos mesmos objetos a verdadeira espiral é desconhecida, antes da Idade Média, se bem que, de remota antiguidade, ali apareça gravada em monumentos de pedra (5).
Constituiam os círculos concêntricos, além de motivo ornamental, uma das usuais representações solares, figuradas em diversos objetos do período do Bronze (6). O culto do Sol, como o da Lua, foi praticado na Península Hispânica desde os tempos pré-históricos até à romanização, pois em muitas lápidas sepulcrais hispano-romanas se vêem ainda insculpidos os correspondentes símbolos astrolátricos (7). Na Serra de Sintra, que era chamada a Serra da Lua (1), praticava-se outrora este culto astral (2). No Noroeste da Ibéria a lua-cheia era, segundo Strabão (3), festejada com danças rituais.
Da presença destes factos é lícito suspeitar que as jóias da espécie das de Cabeceiras de Basto, praticadas em finas lâminas de ouro, como as de Hissarlik-II, podiam muito bem ter, pela sua delicadeza, uma aplicação meramente funerária, e, pela sua forma astral, um sentido votivo religioso, tanto mais que na Ibéria existiam grandes relações entre a necrolatria e a astrolatria (4). Na verdade a precária resistência destas jóias, reduzidas a uma débil folha metálica, não era de molde a um uso corrente e prolongado. As faixas da cabeça ou diademas arcaicos, do tipo do de Bréa, são igualmente reputadas por alguns como jóias de aplicação exclusivamente funerária, obedecendo talvez a ritos determinados, com um significado religioso.
Eis as resumidas ilações de carácter etnológico e etnográfico que os nossos minguados recursos puderam tirar do exame comparativo e do estudo atento do tesouro de Cabeceiras. Se tais ilações forem erróneas ou deficientes, aqui ficam, pelo menos, revelados ao estudo de melhor e maior autoridade estes formosos exemplares, em cuja importância é inútil insistir mais, e que durante tanto tempo se mantiveram ignorados da ciência arqueológica. Possam eles, em curto prazo, dar entrada num Museu português, ficando assim ao abrigo de um possível desaparecimento ou deslocação para o estrangeiro.
MÁRIO CARDOZO
(Continua)
(1) Este disco tem o diâmetro de 36 mm. e o peso de 1,2 gramas Cf. Art. de Santos Rocha «Estudo sobre um arte facto pré-romano de ouro descoberto no Algarve», in Bol. da Sociedade Arch. Santos Rocha-Vol. I, n.º 2-p. 64 a 67, est. III.
(2) Este disco, em ténue folha de ouro, tem 39 mm de diâmetro, e está aplicado sobre bronze. O uso de tal processo técnico remonta na Ibéria a uma grande antiguidade (Cf. Déchelette.—Ob. cit.-II, p. 364). Vergílio Correia, no seu art. «Conímbriga», in Arg. Port.-Vol. XXI, p. 261, reputa esta peça dos princípios da 2.ª Idade do Ferro.
(3) Cf. Schliemann.—Ob. cit.-p. 246 a 252, figs. 239 a 252.
(4) A. de Ridder.—Catalogue des bijoux antiques (Musée du Louvre).-Paris-1924-p. 10, n.º 101 e 103, e Pl. II.
(5) Cf. James Fergusson.—Rude Stone Monuments.-Londres-1872-p. 215 e segs.; G. Coffey.—Origins of prehistoric ornament in Ireland.-Dublin-1897.
(6) Cf. Déchelette.—Ob. cit.-II, p. 439.
(7) Cf. J. Leite de Vasconcelos.—Religiões da Lusitânia.-Vol. I, p. 108 e segts.; vol. III, p. 239, e 406 e segts.
(1) Cf. Ptolomeu.—Geogr.-II, 5.
(2) Cf. Leite de Vasconcelos.—Ob. cit.-Vol. I, p. 105 e segts.; vol. II, p. 26 e 217 e segts. Em Sintra apareceu a célebre xorca, hoje no British Museum, que afecta a forma geral de um crescente lunar, e é como que um produto da evolução das primitivas lúnulas planas, numa tendência sumptuária mais faustosa e complicada. Crescente a considerou Villaamil y Castro (Cf. Bol. de la Com. de Mon. de Orense.-Vol. III, p. 125), e Pierres Paris.—(Essai.-II, p. 244). Compare-se com uma jóia de bronze, similar na forma, proveniente da Dinamarca, figurada em Déchelette.—(Ob. cit.-II, p. 357, fig. 142-2).
(3) Strabão.—Geogr., 164.
(4) Leite de Vasconcelos.—Ob. cit. - Vol. p. III 248.
https://biblioteca.galiciana.gal/gl/catalogo_imagenes/descargarAlto.do?path=1157107&posicion=6
https://galsem-services.galiciana.gal/doclinks/10/1077/107739cd-cb95-40fe-9ba8-e63553e7359f/11571074.xml
duo boçal, um irresponsável; é um colecionador experiente e apaixonado, com cultura bastante para compreender o interesse arqueológico destas peças tão importantes para o estudo científico do nosso passado, bem como a vantagem de conservar em Portugal estes valiosíssimos monumentos da arte e da indústria primitivas. Aqui apelamos pois para a sua inteligência e patriotismo, chamando também a atenção do Sr. Ministro da Instrução Pública de Portugal, bem como do Conselho Superior d'Arte e Arqueologia e Exmo. Director dos Monumentos Nacionais para que evitem a possibilidade de tão preciosas jóias saírem deste país, remunerando o Estado convenientemente o Sr. Serafim Neves, se delas se quiser desfazer, para darem entrada num Museu arqueológico nacional.
Até hoje, só o ilustre e malogrado Arqueólogo Dr. José Fortes teve directo conhecimento do tesouro de Cabeceiras de Basto, propondo-se a escrever e publicar uma documentada Memória sobre ele, não chegando a realizar o seu intento porque a morte o surpreendeu. Em carta para o Sr. Sousa Neves, de 7 de dezembro de 1914, dizia José Fortes que tencionava elaborar uma monografia, em francês, trabalho científico «o mais perfeito possível», que viria a fazer sucesso no estrangeiro. Quis o acaso (as vicissitudes do acaso!) que fôssemos nós, volvidos quinze anos, o realizador do trabalho que a fatalidade não deixou executar ao eminente Arqueólogo. Supérfluo é dizer que nos falta a competência da sua elevada cultura científica; mas se, na parte dedutiva, o nosso modesto trabalho apresentar deficiências, bastará, julgamos nós, a simples descrição e a revelação destas jóias aos competentes, para realizarmos um serviço útil à ciência, tanto mais que, até hoje, depois que morreu Fortes, o Sr. Neves as não tem mostrado a outros arqueólogos, alguns dos quais apenas as conhecem por uma vaga informação. Aqui devemos, portanto, prestar o nosso reconhecimento ao Sr. Sousa Neves, bem como ao Artista Pintor Sr. Abel Cardozo, valioso intermediário a quem o colecionador de Viana se rendeu, por deferência e amizade pessoal, consentindo, finalmente, que fizéssemos o exame das suas formosas peças de ourivesaria pré-histórica e déssemos comunicação pública das mesmas. A sua gentileza subiu ao ponto de nos ofertar a bela fotografia, sobre a qual se executou a gravura que acompanha este desprezível estudo.
Passamos a descrever, o mais minuciosamente possível, as três peças que constituem o tesouro de Cabeceiras de Basto:
LÚNULA (Fig. 1)—Consiste numa delgada lâmina d'ouro, recortada em forma de crescente, com as pontas suficientemente afastadas para darem fácil entrada a um pescoço normal, e apresentando as seguintes dimensões: diâmetro na entrada, tomado no bordo interno das pontas—108,5 mm; diâmetro máximo—123,5 mm; largura da lâmina, na sua parte inferior média—22,5 mm; espessura—menos de ½ mm. Peso exacto—47 gramas.
O crescente apresenta em cada ponta um furo de 2,5 mm de diâmetro, evidentemente para a passagem de um fio que o suspenderia à parte posterior do pescoço. Estes dois orifícios apresentam rebarbas na face posterior da lâmina, o que denota terem sido feitos com um ponteiro percutido da parte anterior para a posterior. Todavia, também no anverso da lúnula se observam ligeiros rebojos, parecendo demonstrar que, depois de praticados os furos, foram estes alargados por meio de pressão e rotação do ponteiro ali cravado.
A peça acusa nitidamente três vincos, de ter sido dobrada em quatro partes, a primeira vez ao meio, unindo assim as duas metades da lúnula pela sua face anterior, e, em seguida, cada uma daquelas metades dobrada em sentido contrário, unindo-se pela face posterior. A dobra inicial provocou mesmo um começo de fractura na superfície anterior da lúnula. O ourives a quem o Senhor Sousa Neves comprou a jóia já lha entregou desdobrada, tal como hoje se encontra; o dobramento foi, por certo, praticado pelo ignorante descobridor, para melhor a ocultar no bolso ou na carteira, juntamente com os dois discos.
A ponta esquerda do crescente, a uma distância de 8 mm. do bordo extremo, encon-
https://galsem-services.galiciana.gal/doclinks/10/1077/107739cd-cb95-40fe-9ba8-e63553e7359f/115710719.xml
A hixiene nos nenos
é a garantía da sua saúde física e moral o día de mañá.
No diario aseo dos nenos empregue o
“Jabón Sales de la Toja”,
único que ás suas altas calidades meiciñás xunta toda a finura e prefume d'un xabón de tocador.
Contribuie ó perfecto desenrolo das criaturas e evita o perigo da escrófula e o raquitísmo.
JABÓN
LA TOJA
ÚNICO EN EL MUNDO
O Xabrón da Toxa
é o mellor.
Honra á Galicia no mundo enteiro
https://galsem-services.galiciana.gal/doclinks/10/1077/107739cd-cb95-40fe-9ba8-e63553e7359f/115710711.xml
Fig. 2.—CRESCENTES DE OURO (1/5 a 1/6 DA GR. NAT.)
1, Irlandés;—2, Escocés; 3, Alemão;—4, Dinamarquês.
https://galsem-services.galiciana.gal/doclinks/10/1077/107739cd-cb95-40fe-9ba8-e63553e7359f/115710710.xml
e ausência da gravura, com outros tipos de lunulae, considerados imitações adequadas ao gosto e cultura regional do país a que pertencem, e não objectos de importação directa, produto das relações do comércio externo (Fig. 2). Referimo-nos a uma das lúnulas dinamarquesas, que apresenta apenas como simples decoração um conjunto de linhas paralelas acompanhando o contorno da jóia (1); a de Schulenburg (Hannover), que, semelhantemente, apresenta apenas três fios, marginando o bordo interno, e dois no bordo externo (2); finalmente, a uma outra, escocesa, de Southside (Lanarkshire), decorada com a mesma simplicidade (3). Têm sido, como dissemos, estas lúnulas consideradas simples imitações, cuja pobreza decorativa se pode atribuir, a nosso ver, tanto a um determinado gosto ou tendência local, como à imperícia dos ourives em repetirem os desenhos habilmente gravados nos exemplares de Irlanda e Noroeste da França, estes últimos inteiramente iguais aos irlandeses (4), e, por isso mesmo, tidos como importados directamente das Ilhas britânicas para o território continental fronteiro (5). Igualmente o contorno geral dos crescentes que acabamos de citar se assemelha mais ao recorte da lúnula de Cabeceiras de Basto do que à forma usual das lúnulas irlandesas; isto é, a largura da zona média inferior dos crescentes irlandeses é, em geral, dupla, tripla e por vezes quádrupla da largura da zona correspondente nos seus similares de imitação estrangeira. Porém, o toque de 750 milésimos dos objectos do tesouro de Cabeceiras, relativamente baixo, aproxima-se mais do toque usual das jóias arcaicas irlandesas, que variava entre 18 e 21 quilates (6), do que do empregado até noutras jóias portuguesas, do mesmo período, que revelam maior percentagem de ouro.
(1) Reinach.—Ob. cit.-p. 80, fig. 4.
(2) Cf. Reallexikon der Vorg.—Art. cit.-Est. 213.
(3) Daniel Wilson.—Prehistoric Annals of Scotland.-Londres-1863-Vol. I, p. 463, fig. 92.
(4) Déchelette.—Ob. cit.-Vol. II, p. 354.
(5) Reinach.—Ob. cit.-p. 80.
(6) Cf. W. R. Wilde.—Ob. cit.-p. 4. A liga da prata com o ouro era conhecida desde os primeiros tempos da metalurgia (Cf. Portugalia, II-p. 246, e E. da Veiga. — Antiguidades Mon. do Algarve-Vol. IV, p. 192).
NÓS
Como quer que seja, todas as conexões entre a lúnula de Cabeceiras e os originais irlandeses, ou as imitações nórdicas, não invalidam nem dissipam, no exemplar português, o ar tipicamente indígena e inconfundível, característica notável de quase toda a obra d'arte primitiva executada na Península, particularmente de ourivesaria (1). Já no processo de suspensão, com seus orifícios extremos para passar um fio ou atadura que a suspenderia ao pescoço (2), transparece nesta lúnula uma inabilidade técnica, uma imperícia que a distingue marcadamente não só das lúnulas estranhas à Península Ibérica (as quais ostentam, por vezes, nas extremidades pequenas placas ou discos, que certamente serviriam de fecho, dispostos em sentido perpendicular ao plano da própria lúnula e praticados pela torsão dessas mesmas extremidades) (3), mas a separa também, por completo, das sobrevivências de Chão-de-Lamas e Viseu (e, talvez, de Allariz), com suas pontas terminadas em cabeça de serpente estilizada ou em botões piriformes, semelhantes aos de certos colares rígidos do chamado tipo galaico. As extremidades da lúnula de Cabeceiras, e seu consequente modo de ajustamento ao pescoço, marcam como que a primeira fase de uma série tipológica que evoluciona-se pelas pequenas placas terminais das lúnulas britânicas, passando finalmente às formas apresentadas nos dois crescentes de Chão-de-Lamas e no de Viseu. Por outro lado, a técnica do relevado das jóias de Cabeceiras acusa a mesma escola do diadema de Bréa; tal como a lúnula, o diadema é decorado por uma série marginal de pontos
(1) Cf. Cabré Agulló.—Ob. cit.-p. 272.
(2) Que as lunulae eram adornos do pescoço, usados à maneira de colares, parece indiscutível. Wilde, Mortillet, Paul du Chatellier e Frazer tomaram-nas por ornamentos da cabeça; segundo este último, dispostas no cabelo à maneira dos diademas usados pelas imperatrizes romanas; sobre as orelhas, segundo Wilde; sobre a nuca, envolvendo o rolo dos cabelos, na opinião de Chatellier. Todas estas hipóteses são mais ou menos insubsistentes.
(3) A de Valognes apresentava numa das pontas um gancho e na outra uma pequena cadela (Cf. Reinach, Ob. cit.-p. 96). Muitas das lúnulas britânicas terminam simplesmente em pontas agudas (Ibid.-p. 77 e 79, fig. 8).
https://galsem-services.galiciana.gal/doclinks/10/1077/107739cd-cb95-40fe-9ba8-e63553e7359f/11571078.xml
212 separados do último, o menor, por uma zona lisa, igualmente de cerca de três milímetros de raio. Vê-se pois ter havido a intenção manifesta de dar a cada disco o número exacto de sete círculos. A técnica é a mesma das caneluras longitudinais e transversas da lúnula.
Pêso total das três peças — 57,1 gramas.
Se é certo que, presentemente, desconhecemos as condições de jazida deste importantíssimo achado, cujas peças acabamos de descrever, ignorando se estavam depositadas numa sepultura por inumação ou num simples esconderijo, encontrando-se assim perdido, talvez para sempre, um inestimável indicador para a fixação de interessantes dados etnográficos, não é menos certo que o seu tipo, a técnica e a sua analogia com objectos similares, estranhos à Península Ibérica, nos ajudam a estabelecer, com muita segurança, a data a que pertencem estes milenários componentes ornamentais da velha indumentária lusitana.
Até hoje, nas estatísticas relativas ao aparecimento de lúnulas, ou crescentes, no Ocidente da Europa, não se encontra incluída a Península Ibérica. William Frazer (1), Reinach (2), Costa de Beauregard (3), G. Coffey (4), Déchelette (5) e, recentemente, W. Bremer (6) não citam as lúnulas actualmente conhecidas como provenientes da Hispânia, uns porque, à data da publicação dos seus trabalhos, ainda elas não estivessem descobertas, outros, posteriormente, porque des-
(1) The Journal of the Society of Antiquaries of Ireland 1897-98, 5.ª série-tomo VII, p. 16 e segts.
(2) Salomon Reinach.—«Les Croissants d'or irlandais», in Revue Celtique.—Paris-1900-Vol. XXI, p. 74 e segts., 167 e segts.
(3) Compte-Rendu du LXII Congrès Arch. de France-Beauvais. 1905.
(4) Georges Coffey.—The distribution of gold lúnulas in Ireland and Nord-Western Europe.—Proceedings of the Royal Irish Academy-XXVII (1907-9), p. 251 e segts.; XXX (1912-13), p. 449 e segts.
(5) J. Déchelette.—Manuel d'Archéologie-Vol. II, p. 854.
(6) W. Bremer.—Art. «Lúnula», in Reallexikon der Vorgeschichte.—Berlim. Vol. VII (1926), p. 321.
NOS
conheceram a sua existência ou as não consideraram integráveis na Época do Bronze, a que geralmente pertencem tais jóias. De facto, entre as quatro lúnulas aparecidas na Península (anteriormente ao achado de Cabeceiras), devem as duas de prata, de Chão-de-Lamas, ser consideradas, segundo o Senhor Cabré Aguiló, não só posteriores, talvez, ao sec. I a. C. (1), portanto já do final da 2.ª Idade do Ferro, mas ainda como artefactos de importação do Norte da Europa, sobrevivências do característico adorno do primeiro período do Bronze. A terceira lúnula, de ouro, achada em Viseu, reproduzida no trabalho do Sr. Aguiló sobre o tesouro de Chão-de-Lamas, é absolutamente semelhante, pelo tipo, técnica e ornamentação, a uma das daquele tesouro, recebendo, portanto, naturalmente, a mesma data. Finalmente, a quarta, de Allariz (Galiza), não se sabe onde pára actualmente, nem o péssimo desenho que dela nos resta em Barros Sivelo (2), sem indicação de dimensões, etc., nos autoriza a classificá-la como um colar do tipo geral das lúnulas, e, muito menos, a atribuir-lhe uma data provável. Porém, a lúnula de Cabeceiras, agora conhecida, é, indiscutivelmente, um auténtico adorno da Idade do Bronze, contemporâneo da expansão desta jóia de origem irlandesa na Gran-Bretanha, Noroeste da França, Norte da Alemanha e Escandinávia.
A mais recente distribuição das lúnulas, dada por Bremer, não difere muito da estabelecida por Déchelette, prova que os achados não têm sido frequentes nos últimos anos. Acusa um total de 88 crescentes, assim repartidos geograficamente: Irlanda—69; Cornualha, País de Gales e Escócia 9 (3); No-
(1) J. Cabré Aguiló.—«El tesoro de Chão de Lamas», in Actas y Mem. de la Soc. Esp. de Antrop. Etnogr. y Preh.-1927, Vol. VI, p. 285 e 289.
(2) Ramón Barros Sivelo.—Antigüedades de Galicia-1875-Coruña. Fig. 19.
(3) Sobre as lúnulas das Ilhas britânicas cf. também as seguintes obras: W. R. Wilde.—Cat. of the antiquities of gold in the Museum of the Royal Irish Academy-Dublin, 1862-p. 10-19; Armstrong.—Cat. of irish gold ornaments in the collection of the R. Irish Academy-Dublin. 1920-p. 9 e segts.; C. H. Read.—British Museum. A guide to the antiquities of the Bronze Age-1904-p. 145 e segts.
https://galsem-services.galiciana.gal/doclinks/10/1077/107739cd-cb95-40fe-9ba8-e63553e7359f/115710717.xml
NÓS
ñetazo que agora pégalle a il si pode da mesma maneira.
—A cómo los vende? (o a cómo la arroba).
—A rial o bocau.
—¿Pra cántos?
—Pra tantos... (dous, tres, catro, etc. e vaise tras il, hasta que dá igoal númaro de voltas, recebindo puñetazos si o outro llos pode dar. O que vai diante cerra o circo, eo que vai detrás comenza a mesma labor que fixera o outro).
A china.
Séntanse no chán, mozos e mozas, co-as pernas estiradas, uns diante d'outros; dous quédanse de pé, un d'iles ten «a china» (unha pedriña) quen ha de deixar ista metida no regazo d'unha muller ou na gorra que os homes poñen de esprofeso, mais como il mete as mans en todos os regazos, decindo «Gardala, gardala, gardala ben», non é fácil saber onde a deixou. Ao concluir, pregunta: —¿Quen ten a china»? —Fulano.
Si non acerta, ten que repetir, e si non, a persoa sentada que tiña a china vai a facer de acertador, o acertador primeiro gardará a china, e o gardador primeiro séntase no sitio d'outro.
O abarqueiro.
É un xogo d'inverno, e de mozos; xógase nos corrales ou nos portales, poucas veces nas prazas, pois ten que estar o chan seco, xa que o xogo faise formando circo, de rodillas, pegados uns aos outros. No medio ponse un que por encima dos hombros dos que forman o corro (circo) verá quen ten a barca, pois ista pasa de man en man por fora do corro; de repente sacúdenlle nas costas un abarqueiraza, e il diríxese alí e bótalle a man, mais ten que ser un donicela pra collela, pois a abarca circula rapidamente, e mentras mira por eiqui xa lle sacuden outra vez, habendo algún que ten que botalo fora por lerdo.
Hoxe xógase con a sola d’unha alpargata, pero n-outros tempos debeu xogarse con abarcas (xa non se usan), e de ahí o nome.
Os mozos namentras fan circular a alpargata, dicen ao unísono: «corre, corre, corre...»
Soin xogal-os mozos tamén ás noites ao salir da escola, a veces no mesmo camiño, poñendo a gorra de alfombra pra non mancar as rodillas.
Cando hai algún mozo «guapo» póñense de acordo os outros, e andan no xogo dúas alpargatas; entonces non hai peligro de que a pesque, pr’o hai peligro de que descubra a trampa se cando está vendo unha lle sacudiron co-a outra.
A cigüeña.
A cigüeña non abonda moito no norte do Bierzo; alí, en Uzeiro fixo niada pitos anos atrás; un tolo que había no povo (Luís «o mouro») subeu á copa do negrillo, púxolle uns trapos na niada, a cigüeña anoxouse, e dende entón fai a niada nos chopos de Veiga de Espiñeireda (Vega de Espinareda), na mesma orela do río Cúa.
Os campesinos queren moito a cigüeña, poucas veces se pousa, pero tanto cando esta a yunta pousada como cando pasa voando, os rapaces fan iste estribillo:
«Cigüeña, barreña,
a casa te queima,
os fillos se van
pra Val de pan.
Entón a cigüeña apresura o voo, e os campesinos corren aos rapaces.
O ergueiro.
Cando nos cai broza nos ollos, que non sexa moita, xuntamos as pestanas, e decimos:
«Corre, María, corre
a sacarme un ergueiro,
que si non ven San Pedro
a sacarmeo primeiro».
Mirlo (merlo), se lle chama «cochorra». Tórtola (creo que a rula), se lle chama «rola».